terça-feira, 31 de julho de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

O M nas linhas da mão





IC, como era conhecido pelos amigos, vivia reclamando de tudo. De tudo mesmo. Do governo, do chefe, dos pais, da esposa, dos amigos, do tempo. Era tão reclamão que virou uma espécie de figura folclórica entre seus amigos. Ninguém se chateava mais com seu jeito. Eles até achavam graça.

__ Esses dias têm chovido, hein IC?

__ Tá uma bosta essa chuva!

__ Uai! Você não estava reclamando do calor?

__ O calor tava uma merda, mas essa chuva toda também é uma merda!

Sua vida era uma catástrofe em todas as esferas: sentimental, profissional, futebolística. Nunca estava satisfeito com nada. Sempre reclamando.

__ Parabéns, IC, pela promoção! Está feliz?

__ Mais ou menos.

__ Como assim, IC?

__ Já estou imaginando a dor de cabeça que vai vir...

__ Ah, IC, curta esse momento da promoção! Deixe pra sofrer depois!

__ Não tem jeito, amiga... eu nasci pra sofrer.

Mas um dia, as coisas mudaram na vida de IC. Ele estava caminhando pela rua, quando uma cigana se aproximou e pediu pra ler sua mão.

__ Estou com pressa!

__ Isso pode mudar sua vida!

__ Bobagem! Só se eu nascer de novo!

__ IC, sou a deusa da oportunidade. Não me deixe passar por sua vida...

__ Como sabe meu nome?

__ Eu sei de tudo, IC.

Acabou convencido e resolveu deixar aquela mulher estranha, com umas roupas esquisitas e um cabelo longo e feio ler sua mão.

__ Estou vendo um M na sua mão. Um grande M. Esse M vai mudar sua vida...

__ Bobagem! Tudo isso é uma grande bobagem!

__ Pessoas com um M nas linhas da mão são pessoas especiais, que nasceram para transformar o mundo.

__ Sei...

__ IC, você é um cara talentoso, possui grande poder de intuição, tem espírito empreendedor. Sua vitória está aqui nas suas mãos.

__ Sei...

__ IC, escute bem o que estou lhe dizendo: toda vez que olhar sua mão, lembre-se que você é uma pessoa muito especial.

IC voltou para casa pensando naquelas palavras: toda vez que olhar sua mão, lembre-se que você é uma pessoa muito especial.

Nunca mais voltou ao normal. Depois daquela tarde, IC se transformou em outra pessoa. Sua vida continuava a mesma, nada mudou. Mas IC havia mudado, não reclamava mais e passou a ver tudo de forma positiva.

Agora, quando algo lhe incomoda, quando vem aquela vontade de reclamar de tudo e de todos, ele olha para sua mão, olha para o céu, respira fundo, sorri e pensa: eu sou uma pessoa muito especial... eu sou uma pessoa muito especial... eu sou uma pessoa muito especial...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Sociedade Alternativa



Tenho ouvido muito o bom e velho Raul Seixas, que nos deixou tão jovem, que nos deixou um legado inestimável de canções e letras desconcertantes, engenhosas e muito atuais. Ouvir Raul é sempre mergulhar naquilo que nossa música produziu de melhor: poesia, loucura e irreverência.

A produção de Raul Seixas é tão significativa e farta, que é muito difícil escolher uma só letra para descer mais a fundo. Mas hoje vou cometer o atrevimento de tentar falar um pouco sobre a letra de Sociedade Alternativa, sobre o que ela representa para mim. Viva a Sociedade Alternativa!

"Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar Papai Noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá!
Faz o que tu queres
Pois é tudo
Da Lei! Da Lei!
Viva! Viva!
Viva A Sociedade Alternativa..."


Faz o que tu queres! Como é difícil pensar e viver assim! Como é difícil... A sociedade quer nos colocar numa caixinha. A sociedade quer todo mundo igual, falando, pensando e fazendo as mesmas coisas. Mais do que isso, a sociedade quer todo mundo comprando as mesmas coisas.

Costumo ser chamado de ponto fora da curva e me identifico muito com isso, com esse ponto fora da curva, com essa tal de sociedade alternativa. Eu não vou lutar pelo cargo que todos querem nem vou comprar o carro que todos querem. Eu não preciso do celular da moda e nem vou vestir a marca de roupa que todos usam. Não! Desculpa, sociedade, mas eu penso, falo, faço e uso o meu dinheiro de forma diferente. Vivo a minha sociedade alternativa todos os dias, sou um ponto fora da curva e defendo sim com orgulho as minhas causas perdidas.

“Oh! Oh! Seu moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Pra onde você for
Oh! Oh! Seu moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí”


Tem momentos que me dá uma vontade de fazer como essa letra aí do Raul Seixas (S.O.S) e fugir dessa sociedade em que vivemos, o Brasil das Anitas, e pegar carona num trem azul rumo às estrelas.

Viva a sociedade alternativa! Viva!

sábado, 2 de dezembro de 2017


Amigos, convido para o lançamento de meu livro de contos.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

De táxi



Gosto muito de conversar com taxistas. Acho que eles sempre têm muitas histórias para contar. Afinal, ninguém mais do que eles conhecem a cidade, suas características e seus personagens. Taxistas, quando não são eles mesmos uns belos personagens, conhecem todos as figuras da cidade e suas histórias engraçadas.

Outro dia, peguei um táxi no aeroporto de Brasília e fui conversando com o taxista até meu apartamento. Que conversa boa! Que figura! O taxista nasceu na Polônia e mora no Brasil, em Brasília, há 35 anos. Fala português corretamente, carregando apenas um leve sotaque e se considera brasileiro, pois já está aqui há mais tempo do que viveu em sua terra natal.

Como a viagem foi longa, conversamos de tudo, comida, futebol, costumes, línguas, trabalho. O velho polonês taxista gosta de conversar e contar histórias. Ele me disse que torce pelo Palmeiras; gosta de nossa comida, que considera muito rica; rapidamente se adaptou ao jeito descontraído do brasileiro e só aprendeu português de verdade quando parou de traduzir e passou a pensar em nosso idioma.

Agora o mais legal da conversa foi o motivo de sua vinda para o Brasil. Ele não veio para cá por causa de questões econômicas, perseguições religiosas ou políticas. Ele atravessou o Atlântico por amor. Conheceu sua esposa brasileira em Varsóvia, onde ela estava trabalhando e estudando. Quando ela voltou para o Brasil, ele não aguentou de saudade e veio atrás dela viver uma aventura do outro lado do mundo, em nome do amor.

O amor, quando verdadeiro, puro e sincero é capaz de remover todas as barreiras: econômicas, religiosas, culturais, linguísticas, geográficas. O mais belo de todos os sentimentos transforma as pessoas e faz com que elas enfrentem todos os desafios, larguem suas famílias, aprendam novas línguas e até cruzem oceanos. O amor é ilimitado como a capacidade do ser humano de amar.

domingo, 10 de setembro de 2017



De 7 a 14 de setembro, é realizado em Congonhas, o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a maior romaria religiosa de Minas e uma das maiores do Brasil, desde 1757.
Que o Bom Jesus nos abençoe hoje e sempre!
Deixo aqui minha homenagem ao Jubileu com a poesia abaixo que publiquei no meu livro 'De mineiro e louco, com mais um pouco'.

JUBILEU

Vai chegando setembro
Nas ladeiras do Bom Jesus,
Com ele a eterna esperança
De umas preces atendidas
De uns trocados no bolso.


Os comerciantes vêm de longe
Trazem novidades da cidade grande:
Terço, relógio, disco,
Calça, rádio, cachaça.
E uma vida sem paradeiro.


Os romeiros vêm devagar
De lugares tão longe, de lugares tão perto.
Bom Jesus os espera,
O comércio os espera,
E a folia também.


Os pobres, escondidos, chegam
De madrugada, chegam os doentes.
Espalham-se por todos os lados,
Lugares sempre estratégicos.
A doença que não se cura, a pobreza que não se acaba.


Os romeiros trazem pecados,
Dinheiro, esperança e preces.
Querem beijar o Bom Jesus,
Falar na Rádio pra quem ficou,
Cumprir promessa e comprar presentes.


Meu Bom Jesus de Matosinhos:
Te peço perdão, por minha omissão.
Te peço dinheiro, para comprar faqueiro.
Te peço permissão, no seu bom coração,
Pra beber da cachaça, um só golinho.


Faz muito calor na ladeira,
Os braços pra cima, as vozes repetem,
Os olhos nas pernas.
Sagrado e profano, abraçados,
Descem a ladeira para jogar.


O bispo faz sermão sério,
Sua voz se mistura ao barulho
Do homem que vende imagem,
Do menino que pede esmola.
É a festa do jubileu!


Abençoados pelo Bom Jesus,
Vão-se embora os romeiros.
Deixando pecados pequenos e grandes,
Levando graças, bolsas e caixas,
E novos pecados modernos.


 O comércio fica mais um pouco,
A cidade não aguenta mais.
O Bom Jesus, cansado,
Vai dormir solitário,
Esperando o setembro chegar.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Coisas do infinito



Um sorriso em nossa direção
dedos que se tocam
mãos sem pressa nos cabelos
um piscar de doces olhos
aquele perfume inesquecível
a voz da mulher amada
nossa música predileta
um poema belo e simples
uma rosa de surpresa
um beijo apaixonado
o pôr-do-sol a dois
são coisas do infinito
que amolecem a alma
que curam os males
que tocam o coração


Poema do livro "Enquanto eles jogam bombas"